"Quem não conhece Deus, mesmo podendo ter muitas esperanças, no fundo está sem esperança, sem a grande esperança que sustenta toda a vida" (Spe Salvi - Bento XVI)
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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Belíssima homilia de Bento XVI na Epifania do Senhor

Homilia do Santo Padre Bento XVI - Epifania do Senhor - 06/01/2012

Extraído do site da Canção Nova

Queridos irmãos e irmãs!

Os Magos do Oriente vão à frente. Inauguram o caminho dos povos para Cristo. Durante esta Missa, vou conferir a Ordenação Episcopal a dois sacerdotes, consagrá-los-ei Pastores do povo de Deus. Segundo palavras de Jesus, caminhar à frente do rebanho faz parte da função do Pastor (cf. Jo 10, 4). Por isso naqueles personagens, que foram os primeiros pagãos a encontrar o caminho para Cristo, talvez possamos – não obstante todas as diferenças nas respectivas vocações e tarefas – procurar indicações para a missão dos Bispos. Que tipo de homens eram os Magos? Os peritos dizem-nos que pertenciam à grande tradição astronômica que se fora desenvolvendo na Mesopotâmia no decorrer dos séculos, e era então florescente. Mas esta informação, por si só, não é suficiente. Provavelmente haveria muitos astrônomos na antiga Babilônia, mas poucos, apenas estes Magos, se puseram a caminho e seguiram a estrela que tinham reconhecido como sendo a estrela da promessa, ou seja, a que indicava o caminho para o verdadeiro Rei e Salvador. Podemos dizer que eram homens de ciência, mas não apenas no sentido de quererem saber muitas coisas; eles queriam algo mais. Queriam entender o que é que conta no fato de sermos homens. Provavelmente ouviram falar da profecia de Balaão, um profeta pagão: "Uma estrela sai de Jacó, e um cetro se levanta de Israel" (Nm 24, 17).

Eles aprofundaram esta promessa. Eram pessoas de coração inquieto, que não se satisfaziam com aparências ou com a rotina da vida. Eram homens à procura da promessa, à procura de Deus. Eram homens vigilantes, capazes de discernir os sinais de Deus, a sua linguagem sutil e insistente. Mas eram também homens corajosos e, ao mesmo tempo, humildes: podemos imaginar as zombarias que tiveram de suportar quando se puseram a caminho para ir ter com o Rei dos Judeus, enfrentando canseiras sem número. Mas, não consideravam decisivo o que se pensava ou dizia deles, mesmo pelas pessoas influentes e inteligentes. Para eles o que contava era a própria verdade, não a opinião dos homens. Por isso, enfrentaram as privações e o cansaço de um caminho longo e incerto. Foi a sua coragem humilde que lhes permitiu prostrar-se diante de um menino filho de gente pobre e reconhecer n’Ele o Rei prometido, cuja busca e reconhecimento fora o objetivo do seu caminho exterior e interior.

A liturgia da Ordenação Episcopal exprime o essencial deste ministério em oito perguntas dirigidas aos Ordenandos, que começam sempre com a palavra: "Vultis? – Quereis?". As perguntas orientam a vontade e indicam-lhe o caminho a tomar. Gostaria de mencionar aqui, brevemente, algumas das palavras-chave desta orientação, nas quais se concretiza aquilo que há pouco refletimos a partir dos Magos que aparecem na festa de hoje. A missão dos Bispos é "praedicare Evangelium Christi", "custodire", "dirigere"", pauperibus se misericordes praebere", "indesinenter orare". O anúncio do Evangelho de Jesus Cristo, guardar o depósito sagrado da nossa fé, ir à frente e guiar, a misericórdia e a caridade para com os necessitados e os pobres nas quais se reflete o amor misericordioso de Deus para conosco e, finalmente, a oração contínua são características fundamentais do ministério episcopal. A oração contínua significa nunca perder o contato com Deus, deixar-se tocar sempre por Ele no íntimo do nosso coração e deste modo sermos permeados pela sua luz. Só quem conhece a Deus pessoalmente é que pode guiar os outros para Deus. E só quem guia os homens para Deus é que os guia pela estrada da vida.

O coração inquieto, de que falamos inspirando-nos em Santo Agostinho, é o coração que, em última análise, não se satisfaz com nada menos do que Deus e é, precisamente assim, que se torna um coração que ama. O nosso coração vive inquieto relativamente a Deus, e não pode ser de outro modo, embora hoje se procure, com "narcóticos" muito eficazes, libertar o homem desta inquietação. Mas não somos só nós, seres humanos, que vivemos inquietos relativamente a Deus. Também o coração de Deus vive inquieto relativamente ao homem. Deus espera-nos. Anda à nossa procura. Também Ele não descansa enquanto não nos tiver encontrado. O coração de Deus vive inquieto, e foi por isso que se pôs a caminho até junto de nós – até Belém, até ao Calvário, de Jerusalém até à Galileia e aos confins do mundo. Deus vive inquieto conosco, anda à procura de pessoas que se deixem contagiar por esta sua inquietação, pela sua paixão por nós; pessoas que vivem a busca que habita no seu coração e, ao mesmo tempo, se deixam tocar no coração pela busca de Deus a nosso respeito. Queridos amigos, foi esta a missão dos Apóstolos: acolher a inquietação de Deus pelo homem e levar o próprio Deus aos homens. E, seguindo os passos dos Apóstolos, esta é a vossa missão: deixai-vos tocar pela inquietação de Deus, a fim de que o anseio de Deus pelo homem possa ser satisfeito.


Os Magos seguiram a estrela. Através da linguagem da criação, encontraram o Deus da história. É certo que a linguagem da criação, por si só, não é suficiente. Apenas a Palavra de Deus, que encontramos na Sagrada Escritura, podia indicar-lhes definitivamente o caminho. Criação e Escritura, razão e fé devem dar-se as mãos para nos conduzirem ao Deus vivo. Muito se discutiu sobre o tipo de estrela que guiou os Magos. Pensa-se numa conjunção de planetas, numa Supernova, ou seja, uma daquelas estrelas inicialmente muito débeis que, na sequência duma explosão interna, irradia por algum tempo um imenso esplendor, num cometa, etc. Deixemos que os cientistas continuem esta discussão. A grande estrela, a verdadeira Supernova que nos guia é o próprio Cristo. Ele é, por assim dizer, a explosão do amor de Deus, que faz brilhar sobre o mundo o grande fulgor do seu coração. E podemos acrescentar: tanto os Magos do Oriente, mencionados no Evangelho de hoje, como os Santos em geral pouco a pouco tornaram-se eles mesmos constelações de Deus, que nos indicam o caminho. Em todas estas pessoas, o contato com a Palavra de Deus provocou, por assim dizer, uma explosão de luz, através da qual o esplendor de Deus ilumina este nosso mundo e nos indica o caminho. Os Santos são estrelas de Deus, pelas quais nos deixamos guiar para Aquele por quem o nosso ser anseia.


Queridos amigos, vós seguistes a estrela que é Jesus Cristo, quando dissestes o vosso "sim" ao sacerdócio e ao ministério episcopal. E certamente brilharam para vós também estrelas menores, que vos ajudaram a não errar o caminho. Na Ladainha dos Santos, invocamos todas estas estrelas de Deus, a fim de que brilhem sempre de novo para vós e vos indiquem o caminho. Com a Ordenação Episcopal, vós mesmos sois chamados a ser estrelas de Deus para os homens, guiando-os pelo caminho que leva à verdadeira Luz: Cristo. Invoquemos, pois, agora todos os Santos, para que possais corresponder sempre a esta vossa missão mostrando aos homens a luz de Deus. Amém!

sábado, 31 de dezembro de 2011

Homilia do Beato João Paulo II em Vitória, em 1991

Na última postagem deste ano, copio do site da Santa Sé, a homilia proferida pelo Beato João Paulo II, quando visitou o Espírito Santo em 1991, há 20 anos.
VIAGEM APOSTÓLICA AO BRASIL

HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II
DURANTE A CELEBRAÇÃO DA SANTA MISSA
PARA OS FIÉIS DA ARQUIDIOCESE DE VITÓRIA

Vitória, 19 de Outubro de 1991


“Pedro, colocando-se em pé, na companhia dos Onze, com voz forte” (At 2, 14).


1. As leituras da liturgia de hoje nos conduzem às portas do Cenáculo de Jerusalém, no dia de Pentecostes. Pedro toma a palavra: “Homens da Judéia e vós todos que habitais em Jerusalém... Que toda a casa de Israel saiba, portanto, com a maior certeza, que este Jesus, que vós crucificastes, Deus o constituiu Senhor e Cristo” (At 2, 14.36).

Na ressurreição de Cristo, Deus revelou que ele é o Messias, o “Ungido” com a plenitude do Espírito Santo. N’Ele se cumpriram plenamente as promessas feitas na Antiga Aliança a Abraão, e transmitidas através de Moisés e dos Profetas.

É Ele que vem ao mundo como luz: “Deus de Deus, Luz da Luz”. Às portas do Cenáculo de Jerusalém, a Igreja começou sua evangelização, que deve chegar até os mais distantes confins da terra. Os Apóstolos e seus sucessores, levarão a luz, que é Cristo, a todos os homens, a todos os povos e a todas as nações.

Queridos irmãos e irmãs deste Estado do Espírito Santo e todos que aqui vieram do Rio de Janeiro, de Minas Gerais, do sul da Bahia e de outros lugares! O Papa se sente feliz no dia de hoje. Veio ele conhecer uma das mais antigas comunidades na história da Igreja no Brasil. Começou ela, de fato, em 1541 com a chegada a esta terra do padre diocesano, Francisco da Luz, primeiro e zeloso pastor da recém-fundada Paróquia de Nossa Senhora da Vitória. Esta comunidade foi santificada pela presença do Beato José de Anchieta que passou neste Estado os últimos anos de sua vida missionária e faleceu no final do século dezesseis na aldeia indígena de Reritiba, que é hoje a cidade que leva o seu nome. Aqui viveu, na mesma época, o homem de Deus, frei Pedro Palácios, o virtuoso irmão leigo capuchinho, catequista e eremita, cuja ermida branca, no alto do rochedo, é hoje o Santuário de Nossa Senhora da Penha, padroeira deste Estado.

2. Cristo é a luz do mundo. “Quem me vê, vê aquele que me enviou”(Jo 12, 45). Cristo, o Verbo eterno, é o Filho consubstancial ao Pai e imagem do Pai, é Deus de Deus. Ele diz: “Quem crê em mim, não é em mim que crê, mas naquele que me enviou”(Jo 12, 44). “O próprio Pai... me ordenou o que devo dizer e falar... As coisas, pois, que eu digo, digo-as como meu Pai me disse” (Jo 12, 49-50).

Pedro e os Apóstolos, às portas do Cenáculo de Jerusalém, começam a anunciar a palavra recebida de Cristo, a palavra que vem do Pai. Esta Palavra é a Boa Nova, ou seja o Evangelho. É a verdade sobre a salvação eterna do homem em Deus. Cristo diz: “Não vim para condenar o mundo, mas para salvá-lo”... “Eu vim ao mundo como uma luz para que todo o que crê em mim não permaneça nas trevas” (Jo 12, 47. 46).

Os que escutavam a Pedro no dia de Pentecostes, depois de ter ouvido a verdade sobre Cristo, converteram-se e fizeram-se batizar. Da palavra sobre a verdade evangélica, nasceu a Igreja como comunidade de batizados no Espírito Santo.

Como aqueles primeiros que se aproximaram de São Pedro no dia de Pentecostes, também nós fomos batizados. E através do Batismo, Deus nosso Pai, tomou posse de nossas vidas, incorporou-nos à Vida de Cristo e mandou-nos o Espírito Santo. O Senhor, diz a Sagrada Escritura, salvou-nos “fazendo-nos renascer pelo batismo, renovando-nos pelo Espírito Santo, que Ele derramou copiosamente sobre nós por Jesus Cristo Salvador nosso, para que, justificados pela graça, cheguemos a ser herdeiros da vida eterna conforme a esperança que possuímos” (Tt, 3, 5-7).

3. Quando o Espírito Santo desceu sobre os apóstolos, no dia de Pentecostes, entre eles estava a Mãe de Cristo. Junto a eles, perseverava Ela em oração desde o dia em que Cristo, tendo partido para o Pai, ordenou-lhes que esperassem juntos o Consolador.