"Quem não conhece Deus, mesmo podendo ter muitas esperanças, no fundo está sem esperança, sem a grande esperança que sustenta toda a vida" (Spe Salvi - Bento XVI)

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Começar pelo começo

Uma das coisas mais importantes e básicas para o processo de ensino é oque se expressa perfeitamente com a conhecida expressão “começar pelo começo”. Dizer isso pode parecer supérfluo por ser óbvio, mas, infelizmente, nem sempre o óbvio tem sido percebido e levado em consideração.

René Descartes, em seu Discurso do Método, escreve que se deve começar

pelos objetos mais simples e os mais fáceis de serem conhecidos, para pouco a pouco subir, como por degraus, até o conhecimento dos mais complexos[1].

Santo Tomás de Aquino, nos primeiros parágrafos de sua obra O Ente e a Essência, a qual escreveu ainda em verdes anos, diz que organizaria o conteúdo

de tal modo que, começando pelo mais fácil, o aprendizado se dê de maneira mais adequada[2]

Um professor que não observe nem sequer essa premissa “óbvia e ululante”deixa de ajudar e passa até mesmo a prejudicar a turma; sem exageros, podemos dizer que ele se converte em um obstáculo para o progresso no conhecimento.

Em obstetrícia, há um antigo adágio que diz que o bebê nasce com o médico, sem o médico ou apesar do médico. Transportando esta lição analogicamente da sala de parto para a sala de aula, podemos dizer que o bom aluno estuda com o professor, sem o professor ou apesar do professor. Todavia, o desejável é termos sempre bons médicos e bons professores para que os bebês nasçam com o auxílio dos primeiros e os alunos aprendam com a ajuda dos últimos. Com efeito, é justamente acreditando nos benefícios do serviço prestado por estes profissionais que as pessoas procuram tanto uns quanto outros. Se soubéssemos de antemão que um médico atrapalharia o parto e um professor dificultaria os estudos, não haveria motivo para procurá-los. Pelo contrário, seria bom dar a eles a mesma advertência que encontramos nas inscrições atrás das carretas: “MANTENHA DISTÂNCIA”.

Parece-me perfeitamente compreensível que alguém tenha que ser um autodidata em muitas situações, quando é impossível contar com a assistência de um mestre. Porém, é lamentável que, tendo um preceptor, o aluno tenha ainda que ser autodidata no sentido mais largo do termo.

Recordo-me de um professor que, no ano propedêutico[3], deu-nos a ler um texto extremamente complexo bastante conhecido nos meios acadêmicos. O título era Dialética da Secularização e consistia num diálogo entre o filósofo Habermas e o Cardeal Ratzinger. Naquela ocasião, nenhum de nós (alunos) sabia com segurança o significado nem de dialética nem de secularização. Ouso dizer que até hoje não sabemos bem! Para agravar a situação, a atitude de pesquisar nos dicionários ou em quaisquer outras fontes está bem longe de ser um hábito universal dos estudantes brasileiros e, naquela nossa turma, não era diferente. De fato, embora tenhamos lido o texto completo e até participado de “discussões” em sala de aula, a maioria terminou o ano sem ter entendido nem sequer o título daquela obra.

De outra feita, já no curso de Filosofia da Instituição em que fazemos faculdade[4], um professor da disciplina de Introdução à Filosofia, ministrada no primeiro período do curso, interrogou-me insistentemente (e também a outros) com a seguinte questão:

“Em sua opinião, o que está correto: a essência precede a existência ou a existência precede a essência?”

A possibilidade de que alunos do primeiro período tenham conhecimentos suficientes para responder a essa questão é mínima. Atrevo-me a dizer que mesmo a maioria dos graduados não está apta a dar uma resposta satisfatória e bem fundamentada. Pior ainda, muitos daqueles que estão nas cátedras universitárias, com mestrado, doutorado ou sei lá que grau de pós-graduação, não responderiam senão de maneira superficial, quando não falaciosa. Os conceitos de existência, essência e precedência são complexos e assumem distintos sentidos na obra dos diferentes filósofos e nos diversos contextos.

Além do mais, entra aqui um problema de linguagem. As palavras existência, precedência e essência fazem parte do vocabulário corriqueiro de qualquer um de nós. Assim, quando ouvimos “precedência” pensamos logo no sentido cronológico. Mas há também o sentido ontológico que é importante na Filosofia, mas praticamente ausente na nossa comunicação diária. Com a palavra essência a dificuldade fica ainda mais nítida. Por exemplo, quem nunca ouviu dizer que um banheiro ou uma sauna estão perfumados com essência de eucalipto? Certamente não era este o sentido que Santo Tomás tinha em mente quando usava o termo essência. Portanto, o professor tinha que explicitar exatamente o que pretendia significar com essas palavras naquele dia. Não se pode usar indiscriminadamente uma palavra com múltiplos significados.

Só para completar o relato, pelo menos que eu tenha notícia, o referido professor não deu jamais uma explicação satisfatória. Disse-nos que para os existencialistas a existência precede a essência; para os tomistas, o inverso; e, para ele mesmo, não há precedência alguma. Três possibilidades, todas elas obscuras para nós e, possivelmente, para ele também.

Porém, o mais importante para mim é o seguinte: para perceber a dificuldade desta questão (e também de muitas outras), se faz necessário ter duas coisas, pelo menos: humildade e honestidade intelectual. Infelizmente, eu percebi serem (ambas) qualidades incomuns nos alunos e nos professores. Assim, muitas vezes as pessoas pensam (ou dizem) entender bem aquilo sobre o que não sabem quase nada. Isto, de per se, constitui um obstáculo enorme à busca do conhecimento.

Perceber que um assunto difícil é difícil é um dom. Parece uma coisa simples, mas tenho notado que não é. E, na verdade, isso é praticamente uma condição sine qua non para o progresso de um estudante dedicado e, mais ainda, para alguém que deseja ser filósofo!

O famoso “sei que nada sei” de Sócrates não é uma mera confissão de ignorância, mas um sintoma de um espírito verdadeiramente filosófico, que admite que não sabe aquilo que não sabe, o que tem muito a ver com perceber que é difícil um assunto difícil.  

(...) Dava-se o caso, com efeito, que nem um nem outro de nós dois soubesse nada de bom nem de belo; mas ele estava convicto de saber enquanto não sabia, e eu, ao contrário, como não sabia, também não julgava saber.
De todo modo, pareceu-me ser mais sábio do que esse homem, ao menos nesta pequena coisa, ou seja, pelo fato de que aquilo que eu não sei, também não afirmo saber[5].

            Outro professor, no fim de uma aula, voltou-se para a turma com cara de lamentação e falou nestes termos (escrevo as palavras exatas que ele usou):

            “A sabedoria que vem da filosofia é saber que não sabe”.

            À primeira vista, parece muito com a expressão atribuída a Sócrates. Mas, no fundo, quer dizer o contrário. Dizer que a sabedoria é “saber que não sabe” é o como afirmar que nenhum conhecimento definitivo é possível e, portanto, é afirmar o ceticismo.

Ao contrário, dizer que “não sabe aquilo que realmente não sabe” é tão somente ser intelectualmente honesto ehumilde.

            O não-saber socrático não é o ponto de chegada do filósofo, mas o ponto de partida. Reconhecer que não sabe aquilo que não sabe é o pré-requisito necessário para começar a estudar. Por outro lado, pretender que o “não-saber” é o melhor resultado dos esforços filosóficos é um ceticismo facilmente refutável. Afinal, a sentença “saber que não sabe” é contraditória porque quem sabe que não sabe já sabe pelo menos de alguma coisa: que não sabe. Pelo que li, parece que Pirro foi mais coerente que os atuais céticos porque, acreditando que não se pode chegar a qualquer conhecimento verdadeiro, ele também se negava a ensinar.

            A humildade e a honestidade intelectual são as duas colunas que devem sustentar todos os esforços do bom aluno. São virtudes sem as quais não se pode pretender ser um bom aluno e muito menos um bom professor e, ainda menos, um filósofo.

            A humildade abre as portas para o conhecimento verdadeiro, como Nosso Senhor Jesus Cristo, fonte de toda sabedoria, deixou claro quando disse:

Eu te bendigo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequenos (Mt 11, 25)[6].

            A parábola das casas construídas uma sobre a rocha e outra sobre a areia, embora tenha sentido espiritual, também é aplicável aqui, por analogia. Quem não se empenha em conhecer bem aquilo que é mais necessário e elementar não pode avançar com segurança para os assuntos mais difíceis. E quem não constrói sua vida intelectual sobre as virtudes da humildade e da honestidade, não pode ser um estudante bem sucedido.

No caso do Evangelho, Jesus refere-se à Sua Palavra, que é a rocha firme sobre a qual devemos edificar nossa vida. Também as bases sobre as quais podemos construir a nossa vida acadêmica são os conhecimentos mais simples e certos a partir dos quais podemos nos aventurar, com humildade e honestidade intelectual, pelo mundo da ciência. As palavras de Nosso Salvador, como registradas pelo Evangelista, são incomparavelmente belas e clarificadoras:

Aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as põe em prática é semelhante a um homem prudente, que edificou sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, vieram as enchentes, sopraram os ventos e investiram contra aquela casa; ela, porém, não caiu, porque estava edificada na rocha. Mas aquele que ouve as minhas palavras e não as põe em prática é semelhante a um homem insensato, que construiu sua casa na areia. Caiu a chuva, vieram as enchentes, sopraram os ventos e investiram contra aquela casa; ela caiu e grande foi a sua ruína (Mt 7, 24-27).
        
    Muitos ditados populares seguem uma lógica parecida: não se pode começar a construir uma casa pelo telhado; de grão em grão é que a galinha enche o papo; não se deve por a carroça na frente dos bois.

            Não estou dizendo nada de extraordinário e nem tenho essa pretensão. Ao contrário, apenas tagarelo sobre aquilo que é óbvio e que muitos outros já explicitaram com muito maior competência desde tempos antigos. Por infortúnio, nossa época é de tal modo estranha que, por vezes, se torna difícil notar aquilo que está bem diante de nosso nariz. Estamos como aquele cego do Evangelho que, respondendo à pergunta de Jesus (o qual lhe tinha passado saliva nos olhos) sobre o que enxergava, disse que via os homens como se fossem árvores que andam (cf. Mc 8, 22-25).











[1] Ibidem, p. 42.
[2] TOMÁS DE AQUINO. O Ente e a Essência, 7ª edição. Vozes, 2005, p. 13.
[3]Em muitas Dioceses, o ano propedêutico é preparatório para o ingresso no Seminário Maior.
[4]Atualmente, os seminaristas seculares de minha Diocese fazem o curso superior de Filosofia em uma instituição fora dos muros do Seminário.
[5] PLATÃO. Apologia de Sócrates. Citado em REALE, G., ANTISERI, Dario. HISTÓRIA DA FILOSOFIA. Vol. 1.  Ed. Paulus, 4ª Ed., 2009, p. 110.
[6] A tradução da Bíblia usada em nossas citações é a da editora Ave-Maria.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A vida interior do discípulo-missionário segundo a Exortação do Papa

A ainda recente Exortação Apostólica Pós-Sinodal do Papa Francisco, chamada Evangelii gaudium, é um texto riquíssimo e muito denso.

Todavia, como tem sido frequente acontecer, as pessoas interpretam tudo superficialmente e com as lentes de diversas ideologias. Não quero discutir essa questão.

Passei os últimos dias a fazer uma leitura meditada do texto inteiro, procurando livrar-me dos meus próprios conceitos preestabelecidos a fim de reformar a minha vida à luz dos conselhos do Santo Padre. Com efeito, muitos trechos me marcaram profundamente e me colocaram, por assim dizer, contra a parede. Em muitos outros encontrei motivações para desejar a santidade, para tentar viver à altura do Evangelho, para trilhar as sendas da perfeição cristã. O Papa insiste nisso em várias passagens!

Por vezes, ouvimos tantas mensagens de pessoas (até envolvidas na vida eclesial!) que nos desestimulam a caminhar com Jesus. São pessoas que afirmam a toda a hora que não se deve fazer esforço para cooperar com Cristo no aperfeiçoamento da vida e na prática das virtudes, senão que se deveria "aceitar-se como se é". E então, olhando para o resultado nem sempre imediato e visível de nossas obras e orações, pensamos que devem ter razão os que nos levantam objeções e acusações.

Por isso mesmo, sempre devemos convencer-nos de novo que não é isso que Jesus espera de nós. E o Santo Padre não nos pede isso. Parafraseando o Papa Francisco, digo com força: não deixemos que nos roubem o desejo de ser santos!

Apenas compartilho um trecho da Exortação que para mim resultou muito salutar, especialmente nesse período de início de ano, em que todos procuramos fazer nossos projetos e traças novas metas. Espero que essa leitura anime todos os leitores, como animou a mim.Viva Jesus!

"A pessoa sabe com certeza que a sua vida dará frutos, mas sem pretender conhecer como, onde ou quando; está segura de que não se perde nenhuma das suas obras feitas com amor, não se perde nenhuma das suas preocupações sinceras com os outros, não se perde nenhum ato de amor a Deus, não se perde nenhuma das suas generosas fadigas, não se perde nenhuma dolorosa paciência. Tudo isto circula pelo mundo como uma força de vida. Às vezes invade-nos a sensação de não termos obtido resultado algum com os nossos esforços, mas a missão não é um negócio nem um projeto empresarial, nem mesmo uma organização humanitária, não é um espetáculo para que se possa contar quantas pessoas assistiram devido à nossa propaganda. É algo de muito mais profundo, que escapa a toda e qualquer medida. Talvez o Senhor Se sirva da nossa entrega para derramar bênçãos noutro lugar do mundo, aonde nunca iremos. O Espírito Santo trabalha como quer, quando quer e onde quer; e nós gastamo-nos com grande dedicação, mas sem pretender ver resultados espetaculares. Sabemos apenas que o dom de nós mesmos é necessário. No meio da nossa entrega criativa e generosa, aprendamos a descansar na ternura dos braços do Pai. Continuemos para diante, empenhemo-nos totalmente, mas deixemos que seja Ele a tornar fecundos, como melhor Lhe parecer, os nossos esforços" (Evangelii gaudium, n. 279)

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Fim de ano e reforma de vida

O ano civil vai chegando ao fim. E, mais importante ainda, o Natal do Senhor vai se aproximando. Certamente é um tempo propício para um bom exame de consciência, uma confissão bem feita e a renovação dos propósitos para o próximo ano.

Li o seguinte no meu livro de cabeceira (Filotéia, de São Francisco de Sales):

"(...) deves renovar assiduamente os bons propósitos de servir a Deus, com receio de que com o tempo recaias no primeiro estado ou, antes, noutro muito pior ainda, porque as quedas na vida espiritual nos colocam sempre muito abaixo ainda do que estávamos antes nas veredas da devoção. (...) É necessário que ao menos uma vez ao ano ele (todo aquele que cuida bem do coração), examine minuciosamente e cuidadosamente as suas disposições, para reparar as faltas que se poderão ter intrometido, renová-las inteiramente e procurar premunir-se quanto possível com a unção da graça que recebe na comunhão e na confissão. Este exercício (...) há de reparar as tuas forças debilitadas pelo tempo, há de reanimar o fervor de tua alma, há de fazer reviver em ti as tuas boas resoluções e reflorescer em ti todas as virtudes".

Não posso deixar este ano terminar sem reconhecer que essas palavras são carregadas de muita verdade. Eu mesmo pude experimentar neste ano, infelizmente, um retrocesso espiritual em algumas áreas que me levaram a um estado semelhante ou pior do que quando estava fora da verdadeira religião.

E como não recordar aquela passagem do Evangelho:

"Quando um espírito imundo sai do homem, anda por lugares áridos, buscando repouso; não o achando, diz: 'voltarei à minha casa, donde saí'. Chegando, acha-a varrida e adornada. Vai então e toma consigo outros sete espírito piores do que ele e entram e estabelecem-se ali. E a última condição deste homem vem a ser pior do que a primeira" (Lc 11, 24-26).

Deus nos ajude a cuidarmos bem do nosso coração para que seja uma morada agradável a Ele e imune às investidas dos maus espíritos. Nossa Senhora da Penha nos proteja a todos e nos ensine a ouvir e por em prática a Palavra de Deus.

Feliz Natal e um próspero Ano Novo a todos!

quinta-feira, 11 de julho de 2013

"Quero ser médica..."


Por Roberta Passamani  
Médicos cubanos, 8 anos de curso, 2 anos de emprego compulsório... e mais aqueles velhos problemas de sempre (falta de estrutura, salário que desvaloriza, etc). Tudo isso está na boca dos estudantes de medicina desse país; também no coração, cheio de inquietude. O curso de medicina é desgastante e, quase apavorante! Noites perdidas, amigos e família deixados de lado. Conversando agora há pouco com meu irmão, podemos trazer a tona a grandeza que é ser um acadêmico de medicina. Estamos nos preparando para salvar vidas, para fazer nascer e até renascer. Então, que em meio a toda essa confusão, façamos a nossa parte, não nos calemos, confiando que, milagrosamente, haverá bom senso nos encarregados dessas decisões. Porque quero ser médica para atender um paciente por vez, chamando cada um pelo seu nome. Que não seja só um caso, só um numero, só mais um doente. Que seja uma pessoa como um todo, com uma história, alguém que deseja e precisa ser amado.

Então, POR FAVOR, que não venha um governo metido a socialista me fazer atender rápido um paciente porque tenho que ter 4 empregos. Que não me venha fazer dizer que nada pode ser feito, porque não há vaga na UTI. Que não me obrigue mandar esperar, porque não há equipamento de exame disponível. E que, no fim, não me venha culpar pelas calamidades da saúde publica desse país.
 
Grupo de internato, nova etapa em nossas vidas a partir desse período! Um por todos e todos por um. Vamos chegar lá! Grande alegria ter vocês como companheiros.
 
 

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Texto da Comissão em Defesa da Vida do Regional Sul 1 da CNBB


Publico texto que recebi de um amigo, o sr. Cláudio Márcio Ferreira. Recomendo a leitura e difusão pela defesa da vida.

No dia 16 de outubro de 2010, a então candidata a Presidente da República, Dilma Rousseff, assinou uma carta de compromisso na qual afirmava:

"Sou pessoalmente contra o aborto e defendo a manutenção da legislação atual sobre o assunto. Eleita Presidente da República, não tomarei a iniciativa de propor alterações de pontos que tratem da legislação do aborto e de outros temas concernentes à família”.

Em 4 de outubro de 2010, o Diário Oficial da União publicava a prorrogação, até fevereiro de 2011, do termo de cooperação Nº 137/2009, assinado alguns dias antes pelo governo Lula, criando no Ministério da Saúde um grupo de “estudo e pesquisa para despenalizar o aborto no Brasil e fortalecer o SUS”.
Se a Presidente Dilma fosse coerente com o que escreveu na carta de 16 de outubro, logo eleita, acabaria com este grupo de estudo e pesquisa. Mas não foi isto que ela fez.

Um novo termo de cooperação Nº 217/2010 foi publicado no Diário Oficial do dia 23/12/10 para criar um “grupo de estudo e pesquisa para estudar o aborto no Brasil e fortalecer o SUS”. Do nome do grupo foi retirado o termo “despenalizar”, mas os demais nomes e detalhes são os mesmos. Este novo termo de cooperação foi prorrogado através de nova publicação no Diário Oficial de 22/12/11 e novamente prorrogado com publicação no Diário Oficial de 09/01/12 para vigorar até 30/08/12.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

De mãos dadas em direção ao reino dos céus

Já faz tempo, é notícia atrasada. Para quem já leu esse texto, escrito por um intelectual agnóstico, vale a pena reler. Para quem não leu, não deixem de ler. É bem interessante.

Extraído do jornal L'Osservatore Romano, logo depois da JMJ Madrid de 2011.



Publicamos a tradução do comentário à Jornada mundial da juventude de Madrid, escrito pelo prêmio Nobel para a literatura de 2010, publicado em «El País» de domingo 28 de Agosto.


Foi bonito o espectáculo de Madrid invadida por centenas de milhares de jovens vindos dos cinco continentes para participar na Jornada mundial da juventude, presidida por Bento XVI, que durante vários dias transformou a capital espanhola numa apinhada Torre de Babel. Todas as raças, línguas, culturas e tradições se misturaram numa enorme festa de adolescentes, estudantes, jovens profissionais vindos de todos os recantos da terra para cantar, dançar, rezar e proclamar a sua adesão à Igreja católica e a sua «dependência» do Papa (Somos adictos a Benedicto, «Somos dependentes de Bento», foi um dos slogans mais recorrentes).


Com excepção daquele milhar de pessoas que desmaiaram no aeroporto Cuatro Vientos devido ao calor cruel e precisaram de assistência médica, não houve inconvenientes e nem sequer grandes problemas. Tudo transcorreu em paz, em alegria, num clima de simpatia geral. Os madrilenos enfrentaram com espírito desportivo os contratempos provocados pelas enormes multidões que paralisaram Cibeles, a Gran Via, Alcalá, a Puerta del Sol, a Plaza de España e a Plaza de Oriente, e as pequenas manifestações contra o Papa da parte de leigos, anárquicos, ateus e católicos rebeldes provocaram episódios de pouca importância ou, alguns até grotescos, como quando um grupo de exasperados lançou preservativos a algumas adolescentes que, animadas por aquilo que Rubén Darío chamava «um branco terror de Belzebu», recitavam o rosário de olhos fechados.


Há duas leituras possíveis deste grande acontecimento que «El País» definiu «o maior encontro de católicos na história da Espanha».


A primeira vê nele um festival, mais de superfície que de importância religiosa, onde os jovens de meio mundo aproveitaram o ensejo para viajar, fazer turismo, divertir-se, conhecer outras pessoas e viver alguma aventura: a experiência intensa mas passageira de umas férias de Verão. A segunda interpreta-o como uma clara negação das previsões de um atraso do catolicismo no mundo de hoje, como a prova de que a Igreja de Cristo conserva a sua força e a sua vitalidade, que a barca de são Pedro atravessa, sem correr perigos, as tempestades que a queriam fazer afundar.


Uma destas tempestades tem como cenário a Espanha, onde Roma e o governo de Rodríguez Zapatero se embateram com frequência nos últimos anos e mantêm relações tensas. Com efeito, não é por acaso que Bento XVI já visitou este país várias vezes, três delas durante o seu pontificado. Pois ao que parece a «Espanha católica» já não o é tanto como no passado. As estatísticas são bastante explícitas. Em Julho do ano passado, cerca de 80% dos espanhóis declaravam-se católicos; um ano depois, só 70%. Entre os jovens, 51% consideram-se católicos, mas apenas 12% afirmam que praticam a religião de modo constante, enquanto o restante só o faz esporadicamente ou por motivos sociais (por ocasião de casamentos, baptizados, etc.). As críticas dos jovens fiéis — praticantes e não praticantes — à Igreja concentram-se sobretudo na oposição desta última ao uso de anticoncepcionais e da pílula do dia seguinte, à ordenação das mulheres, ao aborto e à homossexualidade.


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Sobre o carnaval - Cardeal Eugenio Sales

Dom Eugenio Sales
Arcebispo Emérito do Rio de Janeiro
Extraído do site Pastoralis, datado de 2009.
 
O Padre Antônio Vieira, em seu Sermão da Sexagésima, pronunciado na Capela Real de Lisboa, em março de 1655, classifica pregadores e ouvintes. E nesse sermão, denominado também “Sobre a Palavra de Deus”, ele prefere se incluir na categoria dos que desagradam os fiéis por lhes apresentar, nos sermões, a Doutrina católica na sua integridade. Diz ele: “Que médico há que repare no gosto do enfermo, quando trata de lhe dar saúde? Sarem, e não gostem; salvem-se, e amargue-lhes, que para isso somos médicos das almas”.

Um tema, frequentemente ausente nas homilias da missa e em outras oportunidades, é a penitência, a necessidade da mortificação, o dever da ascese. Alguns católicos, dada a atmosfera reinante, poderão até se admirar que eu aborde o assunto, porquanto sua estrutura espiritual se encontra profundamente deformada. Esses e outros, que fazem ouvidos moucos às candentes invectivas bíblicas na matéria, detestam ouvir tratar da importância da abstinência, do jejum, de sua exigência em tempo quaresmal e em cada sexta-feira do ano. Em todas as sextas-feiras do ano? Perguntarão, surpresos. Sim, respondo eu. Ou melhor, está bem elencado no cânon 1251, do Código de Direito Canônico.

As razões de tamanha modificação na vida cristã moderna são várias, como a secularização, o subjetivismo, a contestação. Abordemos duas outras.

A primeira é o ambiente hedonista que respiramos, que se transformou em critério de comportamento ou sinal de veracidade. Tudo o que restringe o gozo dos sentidos é desprezado. Tenta-se justificar o impossível, com a ajuda de falsos guias espirituais: viver um cristianismo sem os sacrifícios da obediência a um corpo doutrinal ou isento de renúncias. Esquecem-se das palavras do Mestre: “Se alguém quiser vir após Mim, renegue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16,24). O mesmo ocorre com as diretrizes de São Paulo, eco da pregação do Evangelho. Aos gálatas, ele escreve: “Os que são de Cristo, crucificaram a carne com as suas paixões e apetites” (5,24). E sua recomendação aos filipenses guarda, em nossos dias, toda a sua atualidade e valor: “Porque há muitos por aí que se portam como inimigos da cruz de Cristo (...) o seu fim é a perdição, pois (...) só cuidam do que é terreno” (3,18-19).

A segunda razão desse abastardamento é a falsa interpretação das normas conciliares. O Vaticano II aperfeiçoou o conceito de penitência, dando ênfase à identificação com o Cristo. As privações, os sofrimentos e outros atos, sem serem desvalorizados, assumiram mais o papel de meio para alcançar a necessária semelhança com o Senhor. Tal diretriz faz desaparecer aquela casuística que insistia mais no acidental que no essencial. Igualmente, foi dada mais liberdade na escolha do modo, mas não no cumprimento do dever, em si mesmo. Infelizmente, muitos entenderam “alterar” como suprimir a ascese que entrou em recesso para muitas pessoas que se declaram fiéis à Igreja.

Em 17 de fevereiro de 1968, foi publicada a Constituição Apostólica “Poenitemini”, sobre a “Disciplina Eclesiástica Penitencial”, que permanece em vigor, sendo excelente fonte de fundamentação e normas práticas nessa matéria. Começa assim: “Fazei penitência e crede no Evangelho: estas palavras do Senhor parece-nos devermos repeti-las hoje”. Passados poucos anos do encerramento do Concílio, o Papa Paulo VI já sentia esse drama que, no fundo, é uma traição à nossa Fé. Muitos cristãos cederam ao espírito do mundo.

As advertências não faltaram. O novo Código de Direito Canônico, deu uma estruturação jurídica à observância da penitência. Os cânones 1251 e 1253, legislando para a Igreja universal, deixam aos Bispos locais, reunidos em conferência episcopal, o direito de determinar a maneira de satisfazer esta obrigação do Evangelho, ao mesmo tempo que reafirmam a necessidade de a penitência marcar toda a vida do cristão.

O Episcopado brasileiro se manifestou na época sobre a matéria e aguardou a indispensável decisão da Santa Sé. Com data de 30 de outubro de 1986, de acordo com o Decreto da Congregação para os Bispos, o presidente da CNBB promulgou a Legislação Complementar ao Código de Direito Canônico, no que se refere aos cânones 1251 e 1253. Ei-la: 1º: “Toda sexta-feira do ano é dia de penitência, a não ser que coincida com solenidade do calendário litúrgico. Os fiéis, nesse dia, se abstenham de carne ou outro alimento, ou pratiquem alguma forma de penitência, principalmente obra de caridade ou exercício de piedade”. 2º: “A Quarta-feira de Cinzas e Sexta-feira Santa, memória da Paixão e Morte de Cristo, são dias de jejum e abstinência. A abstinência pode ser substituída pelos próprios fiéis por outra prática de penitência, caridade ou piedade, particularmente pela participação, nestes dias, na Sagrada Liturgia”.

O texto, por sua clareza, dispensaria maiores comentários elucidativos. Entretanto, desejo sublinhar que as sextas-feiras de todo ano, ordinariamente, são dias de penitência. Os fiéis têm bastante liberdade de escolher o modo, a maneira e não o exercício da ascese.

Nestes dias de carnaval, que se aproximam para desagravar o Coração de Jesus, dolorosamente ofendido pelos desregramentos morais praticados, e às vésperas do início da Quaresma, torna-se muito oportuno este esclarecimento e o apelo à penitência.

No momento em que o mundo põe o prazer sem referência à lei moral num pedestal de falsa divindade, o cristão, embora minoria, deve cumprir, com maior afinco sua missão de fermento do Bem e luz nas trevas, em um mundo enlouquecido.

Termino retomando palavras do grande pregador Padre Antônio Vieira, no final de seu célebre Sermão da sexagésima (1655): “Veja o céu que ainda tem na terra quem se põe da sua parte. Saiba o inferno que ainda há na terra quem lhe faça guerra com a palavra de Deus; e saiba a mesma terra, que ainda está em estado de reverdecer e dar muito fruto: ‘Et fecit fructum centuplum’, ‘cem por um’”.